“A creche é o pai”: instituição pública ou projeção de uma família idealizada?

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Descrição

A difícil complementaridade entre creche e família

No momento em que surgiu a idéia deste texto, abril de 2008, o Brasil estava mobilizado em torno do esclarecimento de um crime que causou comoção, por se tratar do assassinato de uma menina de cinco anos de idade, cujos principais suspeitos eram o pai e a madrasta da vítima.
Antes que esse crime deixasse de ocupar as principais manchetes dos jornais, outros crimes semelhantes foram denunciados: uma auxiliar de enfermagem jogou a filha pela janela e explicou posteriormente que estava se “desfazendo do pacote” - expressão utilizada no meio hospitalar para se referir aos pacientes que morreram e que são envolvidos em lençóis antes de serem enviados ao necrotério; em setembro do mesmo ano, dois adolescentes foram assassinados pelo pai e pela madrasta na primeira noite que retornaram para casa, depois de um período abrigados sob tutela do Estado devido a um histórico de maus tratos infligidos pela família. A comoção que tais crimes provocam diz respeito à evidência de uma vulnerabilidade das crianças frente àqueles que precisamente deveriam protegê-las. Evidenciam o desamparo infantil, ao qual se referiu Kehl (2008), nas páginas dos mesmos jornais que noticiam os crimes:
“as crianças não têm como se defender da displicência e da irresponsabilidade dos pais, nem dos excessos de amor, de sensualidade, de ira, de gozo: pais, mães, padrastos, madrastas, avôs e avós abusam de várias maneiras, ‘por amor’, de crianças indefesas.” (Kehl, 2008:pág..7).
Esses fatos, entre tantos outros, revelam as precárias condições sociais e afetivas em que se encontra parte significativa das crianças brasileiras e leva-nos a pensar na inadequação das próprias famílias em sua tarefa de prover tanto o substrato material como psíquico, para criar um ambiente favorável ao cuidado dos seus membros, seja qualquer for a idade. Estariam as famílias, como as crianças, desamparadas? Além das crianças, os idosos, os doentes ou aqueles que têm necessidades especiais podem tornar-se dependentes dos cuidados familiares. O espectro das necessidades de cuidado na família é amplo. Pode-se dizer que o cuidado é intrínseco às relações familiares. Sabemos que o cuidado na família, como no mundo social em geral, tem sido culturalmente uma atribuição feminina (Scavone, 1997), e poucas famílias (ou melhor, poucas mulheres) têm condições de dividir essa tarefa com profissionais especializados ou serviços de atendimento.

Fonte

Adriana Friedmann

Idioma

Português

Tipo

Artigo científico

Editor

Editado por Fernando

Formato

Pdf

Referência

SARTI, Cynthia Andersen MARANHÃO, Damaris Gomes, ““A creche é o pai”: instituição pública ou projeção de uma família idealizada?,” Plataforma de Pesquisas - A Casa Tombada, acesso em 12 de agosto de 2022, http://plataformapesquisas.acasatombada.com.br/items/show/1403.

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